Histórias de brasileiros

 

Nascido em Ipu-Ceará, terra da famosa “bica” onde teria se banhado a indígena nativa Iracema, “a virgem dos lábios de mel”, do romance de José Alencar, o senhor Edmundo João de Oliveira, veio ao mundo em 1943. Começava aí a interessante trajetória de um homem simples, como a expressiva maioria dos brasileiros, caracterizada pela luta e aventuras em busca de melhores condições de vida para si e sua família.

Como primeiro e estranho fato, o registro do seu nascimento mostra um “envelhecimento precoce” de dois anos, uma vez que ali consta o ano de 1941, ao que tudo indica para assegurar voto para algum político importante da região, que ele não se lembra o seu nome. Esses políticos! Sempre eles!

Conseguiu estudar até o “quarto ano primário”, em precária “escola particular”, com a “fessora” amiga da família, já que inexistia escola pública na comunidade, tendo largado os estudos em torno dos quinze anos.

Atraído pela construção de Brasília, como muitos nordestinos, chegou à Capital Federal em 1960, numa viagem que durou eternos doze dias em pau-de-arara, tendo deixado para trás a namorada, com a qual veio casar-se em 1962, e teve sete filhos. Aqui instalado, atuou em diversas frentes de trabalho, como servente, atendente e vigilante, tendo, inclusive, dentre outras obras, “ajudado a construir o Hotel Nacional”. Durante seus dois primeiros anos de vida nestas terras, chegou a ficar vinte dias dormindo numa rede amarrada embaixo de um caminhão, no “Setor Placa da Mercedes”, no Núcleo Bandeirante. Em 1970, foi morar no Núcleo Rural do Palha (a “Serrinha”), onde montou um barraco de madeirite à margem do córrego que dá nome ao local, numa situação extremamente frágil e vulnerável, onde “residiu” até 1973. Quatro anos depois, construiu seu barraco num terreno na parte alta do morro, após árdua luta com a Terracap, até que em 1976, o lote recebeu “numeração”, dando-lhe um certo grau de oficialidade e consequente maior grau de segurança para investir na construção de sua casa em alvenaria, com o fruto da pequena reserva financeira que conseguiu formar, com muito sacrifício, junto com sua fiel parceira, Dona Altina.

Trabalhou duro em diversos empreeendimentos no Plano Piloto e em outras áreas de Brasília, sempre apoiado no amor e carinho de sua esposa, que também era sua tia (isso mesmo!), morando num local que não contava sequer com energia elétrica. Tudo era feito à luz das “lamparinas” – até mesmo o estudo dos filhos. Deixou de trabalhar para terceiros lá para o ano de 1986, quando resolveu melhor estruturar o pequeno negócio, um “mercadinho”, que montara em sua própria residência que, no início, era tocado até então apenas por sua companheira de sempre, a Dona Altina.

Muito bem. Passemos agora a falar dessa figura ímpar, um grande exemplo de mulher e ser humano, Dona Altina Bezerra da Silva Oliveira, nascida da cidade de Pedro II (Piauí), também conhecida como a “Suíça Piauiense”, de clima serrano, com forte potencial turístico, e onde estão as únicas minas de “opala” do País, um mineral muito bonito e valioso. Diametralmente oposto ao caso ocorrido com o seu marido, ela, que nasceu em 1940, teve o seu registro de nascimento oficializado somente em 1942. Coisas do nosso Brasil interiorano!

Jamais estudou numa escola. No entanto, por força da necessidade de cuidar dos negócios da família, o “mercadinho” no barraco onde moravam, no topo do Núcleo Rural do Palha, aprendeu a ler “na marra”, lá pros idos de 1975-1977. Eu vendia muita “pinga” naquela época, diz ela. Com a construção da casa, em alvenaria, o mercadinho também foi ampliado e está lá instalado, à frente de sua residência, mais recentemente gerenciado pelos seus filhos. Dos sete filhos que tiveram, apenas três estão vivos. O menino é formado em contabilidade e, as meninas, em enfermagem. Uma vitória de todos (pais e filhos), sem dúvida, dadas as circunstâncias em que nasceram e cresceram. Fato pitoresco: enquanto ainda no Piauí, num raro momento em que passou de passagem por uma escola, numa atividade chamada de “argumento” (prova ou certame), lhe foi solicitado por um “professor” para soletrar o nome “estranbolequeteozidadeiramente” (sic) e ela o fez, arrancando aplausos dos presentes, uma vez ninguém mais o conseguira. Mas ficou só isso mesmo! De ressaltar que, também ali, o contraste, a desigualdade social que ainda impera no Brasil, está presente – junto às casas mais simples, de pessoas de baixa renda, que trabalham como diaristas, domésticas, jardineiros, pedreiros …, mais recentemente foram e continuam sendo construídas grandes residências, por pessoas de bem maior poder aquisitivo.

Quando o Programa Providência, no contexto do seu projeto de Alfabetização de Adultos e Idosos, resolveu criar uma turma de alunos no Núcleo Rural do Palha, em 2015, duas das primeiras pessoas a se inscrever foram exatamente, o Senhor Edmundo e a Dona Altina. As aulas eram realizadas à noite, no Centro Comunitário, que ficava um pouco distante para ela, que mora no primeiro terço do morro, e tinha que subir até lá no escuro. Ele não frequentou a “escola” por muito tempo; ela, no entanto, foi sempre uma das alunas mais assíduas e dedicadas, com bom aproveitamento na leitura, escrita e na matemática básica. A partir de 2018, as aulas passaram a ser realizadas na Escola Classe Aspalha, que fica bem perto de sua residência e ela, então, só não se fazia presente se estivesse doente – o que poucas vezes aconteceu. Ela é uma fortaleza! Um belo exemplo a ser seguido! Infelizmente, com a chegada da pandemia do covid19, as aulas foram suspensas, mas ela sempre entra em contato com o Programa Providência, para saber quando as aulas serão retomadas, com uma vontade enorme de “aprender ainda mais”, costuma repetir.

Infelizmente, no dia 07 de maio de 2021, veio a falecer o Senhor Edmundo, deixando um vazio enorme na vida de Dona Altina, de seus filhos e de seus amigos – dos quais nós, do Programa Providência, fazemos parte. Texto: Luiz Jorge de Oliveira